Fernando de Noronha - Foto: Divulgação

O futuro do turismo brasileiro passa, cada vez mais, pela sustentabilidade. E essa discussão chegará ao centro do debate político nacional na próxima semana, quando a Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados realizará uma audiência pública para analisar experiências de gestão sustentável em dois dos destinos mais emblemáticos do país: Fernando de Noronha, em Pernambuco, e a Ilha do Mel, no Paraná.

O encontro, marcado para esta quarta-feira, dia 17 de junho, integra o projeto “Brasil em Rotas: Boas Práticas e Inovação no Turismo”, iniciativa criada para identificar modelos de sucesso que possam servir de referência para outros destinos brasileiros.

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Segundo a deputada Daniela Reinehr (PL-SC), autora do requerimento, o objetivo é conhecer estratégias capazes de equilibrar a preservação ambiental com a atividade econômica, um dos maiores desafios enfrentados atualmente pelo setor turístico.

A discussão acontece em um momento em que cresce, no Brasil e no mundo, o interesse por modelos de turismo sustentável e regenerativo, capazes de proteger patrimônios naturais sem comprometer o desenvolvimento das comunidades locais.

O desafio de preservar sem impedir o turismo

Destinos de grande apelo natural enfrentam um dilema comum: quanto mais visitantes recebem, maior é a pressão sobre os ecossistemas que justamente atraem esses turistas.

Praias, trilhas, áreas de preservação, recursos hídricos e comunidades tradicionais podem sofrer impactos significativos quando o crescimento da atividade ocorre sem planejamento adequado.

Nos últimos anos, o fenômeno conhecido como “overtourism” — ou turismo excessivo — tornou-se uma preocupação em diversos destinos do mundo, levando gestores públicos e especialistas a buscarem alternativas para garantir a conservação ambiental sem inviabilizar a atividade turística.

É nesse contexto que experiências como as de Fernando de Noronha e da Ilha do Mel vêm chamando atenção.

Fernando de Noronha: um modelo de controle e preservação

Considerado um dos destinos mais desejados do Brasil, Fernando de Noronha construiu sua reputação internacional não apenas pela beleza de suas praias, mas também por suas políticas de preservação ambiental.

O arquipélago adota mecanismos de controle que incluem limites de visitantes, cobrança de Taxa de Preservação Ambiental e regras específicas para acesso a áreas protegidas.

A estratégia busca reduzir os impactos da presença humana sobre um dos ecossistemas marinhos mais importantes do país, ao mesmo tempo em que mantém o turismo como principal atividade econômica local.

O modelo é frequentemente citado em debates sobre gestão sustentável por tentar encontrar um equilíbrio entre conservação e geração de renda.

Ilha do Mel aposta em capacidade controlada

Outro exemplo que será discutido na audiência é a Ilha do Mel, no litoral do Paraná.

Conhecida por suas praias preservadas, trilhas ecológicas e paisagens naturais, a ilha também adota mecanismos de controle de acesso para evitar sobrecarga ambiental.

A limitação da quantidade de visitantes e as ações voltadas à proteção dos ecossistemas locais transformaram o destino em uma referência nacional de gestão turística em áreas sensíveis.

Assim como ocorre em Fernando de Noronha, a proposta é garantir que a atividade turística permaneça economicamente viável sem comprometer os recursos naturais que sustentam a atratividade do destino.

O que é turismo regenerativo?

Mais recentemente, o debate sobre sustentabilidade no turismo evoluiu para um conceito ainda mais amplo: o turismo regenerativo.

Enquanto o turismo sustentável busca minimizar impactos negativos, o turismo regenerativo propõe que as viagens deixem benefícios concretos para os lugares visitados.

A ideia é que turistas, empresas e gestores contribuam para fortalecer comunidades, recuperar ambientes naturais, valorizar culturas locais e gerar desenvolvimento econômico de forma equilibrada.

Na prática, isso significa que o turismo deixa de ser apenas uma atividade de consumo para se tornar uma ferramenta de transformação positiva dos territórios.

Uma tendência global

A busca por modelos regenerativos vem crescendo em diferentes partes do mundo.

Destinos internacionais têm investido em projetos de recuperação ambiental, valorização de comunidades tradicionais, incentivo ao consumo local e preservação do patrimônio cultural.

Ao mesmo tempo, os próprios turistas demonstram interesse crescente por experiências mais autênticas e responsáveis.

Essa mudança de comportamento tem levado governos, organizações internacionais e empresas do setor a repensarem a forma como o turismo é planejado e desenvolvido.

Oportunidade para outros destinos brasileiros

As experiências de Fernando de Noronha e da Ilha do Mel podem servir de inspiração para diversas regiões brasileiras que enfrentam desafios semelhantes.

Destinos como Bonito, no Mato Grosso do Sul, Jalapão, no Tocantins, Lençóis Maranhenses, no Maranhão, Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e o Pantanal já discutem formas de ampliar a proteção ambiental enquanto recebem um número crescente de visitantes.

Especialistas apontam que o sucesso desses locais dependerá cada vez mais da adoção de políticas capazes de equilibrar crescimento turístico, conservação ambiental e desenvolvimento das comunidades locais.

Um debate que vai além das ilhas

Embora a audiência pública tenha como foco Fernando de Noronha e a Ilha do Mel, a discussão reflete um desafio enfrentado por todo o setor turístico.

O crescimento do turismo continua sendo uma oportunidade importante para a geração de emprego, renda e desenvolvimento regional. No entanto, garantir que esse crescimento aconteça de forma planejada e sustentável tornou-se uma necessidade cada vez mais urgente.

Ao buscar exemplos de boas práticas e modelos replicáveis, a Comissão de Turismo coloca em pauta uma questão que deve ganhar ainda mais relevância nos próximos anos: como fazer o turismo crescer sem comprometer os recursos naturais e culturais que tornam os destinos únicos.

A resposta pode estar justamente na combinação entre inovação, gestão eficiente e uma nova forma de enxergar as viagens — não apenas como uma atividade econômica, mas como uma oportunidade de promover conservação, valorização cultural e desenvolvimento sustentável.