Foto: divulgação/Thais Andressa

A 10ª Semana Criativa de Tiradentes movimentou a cidade histórica mineira entre 15 e 18 de outubro de 2026 com números que ampliam a dimensão alcançada pelo festival ao longo de uma década. Foram 27 mil pessoas circulando pela cidade durante os quatro dias de evento, 7.174 inscrições preenchidas na plataforma Even3 para as 169 atividades e atrações da programação, e aproximadamente 100 mil atendimentos acumulados nos diferentes pontos de realização do festival. A edição comemorativa distribuiu sua programação por 22 espaços em 17 endereços e teve na estreia d’A Casa D’Preto, no Sobrado Ramalho, sede do IPHAN, seu gesto mais simbólico: pela primeira vez, o edifício foi ocupado por uma programação dedicada à arquitetura, à arte e às tecnologias ancestrais afro-brasileiras. O próximo capítulo já tem data: a 11ª edição acontece de 21 a 24 de outubro de 2027.

“Dez anos depois, a Semana mantém uma identidade que se construiu coletivamente. Isso nos dá segurança para preservar a curadoria acima de qualquer pressão por números. Quem participa do festival entende que está apoiando um projeto com DNA definido, e não uma vitrine comercial”, afirma a jornalista Simone Quintas, idealizadora do evento ao lado do produtor cultural Júnior Guimarães.

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Uma cidade tomada pela criatividade

No balanço de dez anos do festival, a descentralização talvez seja sua marca mais duradoura. Em vez de concentrar tudo em um único galpão ou centro de eventos, a Semana Criativa de Tiradentes espalha oficinas, palestras, intervenções artísticas e ativações por casarões coloniais, sedes institucionais, vias públicas e igrejas como a Matriz de Santo Antônio – joia barroca da cidade, que recebeu o lançamento do evento. O visitante é convidado a caminhar, e esse percurso tem efeito econômico direto: restaurantes, pousadas e o comércio local se beneficiam em um período do ano tradicionalmente marcado pela baixa procura turística.

“Quando a programação se espalha por casarões, ruas e igrejas, o público percorre a cidade e faz a economia girar de forma pulverizada, e não concentrada em um só ponto. É um desenho que beneficia Tiradentes como um todo, do comerciante ao morador que vê a cidade movimentada em um mês de baixa temporada”, explica Guimarães.

Os números do relatório preliminar confirmam o alcance nacional e a vocação formativa do festival. A análise da Even3 identificou participantes dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, além de registros de 15 outros países – com predominância de Minas Gerais (46,4%), seguida por São Paulo (23,6%) e Rio de Janeiro (14,9%). Entre as 4.083 respostas com ocupação informada, 26,3% atuam em arquitetura e urbanismo, 9,5% em design e decoração e 8,6% são estudantes, o que evidencia a capacidade do evento de funcionar como polo de formação e atualização profissional. A composição da programação reflete essa diversidade: foram 43 oficinas, 31 bate-papos, 25 palestras, 25 exposições, 10 visitas guiadas, 9 celebrações e festas e 8 instalações, além de sessões de cinema comentado, projeções mapeadas, performances, cortejos, espaços de vendas e casas temáticas.

A pluralidade territorial se materializou nas casas temáticas: a consolidada Casa Pará, a estreante Casa Rio e a Casa do Design Cearense funcionaram como embaixadas de diferentes regiões brasileiras, ao lado da Casa Mata Atlântica, da Casa Arado e da Casa Criativa, o coração do festival, que abrigou mostras de design colaborativo entre designers e artesãos, o tradicional Agulhaço e o polo comercial de design autoral. O Mercado da Semana Criativa, em seu novo endereço na Villa da Matriz, reuniu marcas, artesãos e pequenos produtores de várias partes do país.

“A Semana é um recorte do Brasil dentro de uma pequena cidade histórica. Você atravessa a rua e encontra o Pará, o Rio, o Ceará, a Mata Atlântica. Essa convivência de repertórios de diferentes regiões do país demonstra que a criatividade brasileira não cabe em um único sotaque, em uma única estética”, defende Simone.

Essa pluralidade também revela a transversalidade entre o fazer manual e a cultura. Embora tenha nas artes manuais e autorais seu eixo curatorial, o festival caminha lado a lado com a produção cultural brasileira em sentido amplo: a programação incluiu cinema comentado, cortejos de congado e de tradição popular, performances, música, dança, literatura, gastronomia e debates sobre preservação do patrimônio. O resultado é um evento que não se limita ao design, e se desenvolve como uma plataforma de encontro entre diferentes linguagens e saberes.

A sustentabilidade operacional também foi um dos eixos da edição comemorativa. Tiradentes tem cerca de 7 mil moradores e recebe um fluxo de visitantes que multiplica temporariamente sua população. Diante disso, a organização manteve interlocução constante com a Prefeitura para a destinação adequada de resíduos.

“Crescer exige responsabilidade. Trabalhamos lado a lado com a Prefeitura para que a cidade dê conta do volume de visitantes sem perder qualidade de vida. O festival só faz sentido se Tiradentes continuar sendo um lugar bom de se viver – tanto para quem mora quanto para quem visita”, pondera Guimarães.

A Casa D’Preto, protagonismo local e o futuro da Semana

Se a ocupação urbana é a assinatura do festival, a estreia d’A Casa D’Preto foi um dos capítulos mais simbólicos da 10ª Semana Criativa de Tiradentes. Sob curadoria dos arquitetos Pedro Rubens e Heloisa Nascimento, o Sobrado Ramalho abrigou a exposição Orí-gem – com 12 artistas locais e uma artista goiana convidada –, o I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, com coordenadores de 17 estados e de Lisboa, o lançamento da Plataforma Arquitetura D’Preto e a exibição do documentário A Casa D’Preto, com direção de Daniel Pereira e Tainara Matos. A antiga senzala, hoje um depósito, foi reativada como altar, em gesto de reverência aos ancestrais.

“A Casa D’Preto foi um divisor de águas. Ocupar o Sobrado Ramalho com uma programação afro-brasileira foi um gesto de reparação e de abertura de espaço para profissionais e artistas que sempre existiram, mas raramente ocuparam o centro do debate. Os setores de arquitetura e design ainda são predominantemente brancos, e isso só muda com inclusão e presença”, reflete Simone.

O protagonismo de artistas e artesãos locais foi outro eixo estruturante da edição comemorativa. O homenageado da edição, o tiradentino Vinicius Rosa Rios, teve sua obra inspirada no Barroco Mineiro celebrada em bate-papo sobre ex-votos ao lado de Angela Gutierrez, colecionadora de arte e fundadora do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, e do presidente da FAOP (Fundação de Arte de Ouro Preto), Rodrigo Câmara. O cortejo do Congado de Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia, liderado pelo Mestre Prego, emocionou visitantes e moradores, assim como a estreia do Cortejo do Bobo Gaiato, vindo de Porto de Pedras (AL), com máscaras, música e irreverência.

“Ver o Mestre Prego conduzindo o cortejo pelas ruas, o Vinicius sendo celebrado como homenageado, os artesãos ocupando as casas. São ações como essas que dão sentido ao festival. Para 2027, queremos manter a essência e ampliar o alcance, mas sem perder a escala humana que faz a Semana ser o que é”, promete Guimarães.

A realização da 10ª edição foi viabilizada por meio da Lei de Incentivo à Cultura federal e estadual – mecanismos que permitem a empresas e instituições direcionarem recursos a projetos culturais, garantindo autonomia curatorial e continuidade a um festival de dez anos. Ao lado do poder público, um conjunto de parceiros tornou possível a programação: a Electrolux como patrocinadora máster; Sebrae e Casa Riachuelo como patrocinadores; Eliane e Decortiles no copatrocínio; Atlas Revestimentos, CAU-MG, Germer Porcelanas e Lider como apoiadores; e Belotur, Prefeitura de Belo Horizonte, Metropolitano, Villa da Matriz e UNESCO como parceiros culturais.

A edição comemorativa deixou renovadas a pintura em cal da fachada do Sobrado Ramalho, sede do IPHAN, e a pintura da fachada e do auditório do Centro Cultural Yves Alves, em parceria com a Coral, tinta oficial do evento. Essa rede de apoio, destacam os organizadores, não se limita ao financiamento: ela sustenta a infraestrutura e reforça a rede que conecta o festival à cidade e ao setor criativo. Ao longo de dez edições, a Semana Criativa de Tiradentes se consolidou como marco da descentralização do setor e como exemplo de evento cultural que gera impacto para além do próprio segmento, conectando redes de profissionais, valorizando o território, o patrimônio histórico e preservando a autonomia curatorial frente às pressões mercadológicas.