Mariana Ferreira, diretora executiva da Uruguay XXI, destaca o Brasil como parceiro estratégico e aponta oportunidades para ampliar os investimentos brasileiros no Uruguai - Foto: Divulgação

A proximidade geográfica entre Brasil e Uruguai está se traduzindo em uma relação econômica cada vez mais estratégica. Comércio, serviços, turismo e investimentos formam hoje os principais pilares dessa aproximação, em um cenário no qual empresas brasileiras ampliam o olhar para o país vizinho em busca de estabilidade, segurança jurídica e novas oportunidades de expansão.

Em entrevista exclusiva ao Turisnews, Mariana Ferreira, diretora executiva da Uruguay XXI, agência responsável pela promoção de investimentos, exportações e imagem-país, destacou que o Brasil ocupa uma posição especialmente relevante para a economia uruguaia e que o interesse de investidores brasileiros vem crescendo.

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“O Brasil é um parceiro estratégico para o Uruguai, é muito importante para o Uruguai. Nós dizemos que somos os vizinhos pequenos, o irmão caçula do Brasil”, afirmou.

Segundo Mariana, o Brasil é atualmente o segundo principal destino das exportações uruguaias de bens. Quase US$ 2 bilhões das vendas externas do país, equivalentes a cerca de 15% das exportações de bens, têm o mercado brasileiro como destino. A executiva ressalta ainda que parte dos produtos enviados ao Brasil não integra de forma significativa a pauta destinada a outros mercados, o que torna a relação comercial ainda mais particular.

Turismo reforça a conexão entre os dois países

O turismo é outro componente importante dessa relação. De acordo com Mariana, os brasileiros representam aproximadamente 20% dos turistas estrangeiros que chegam ao Uruguai, atrás apenas dos argentinos, responsáveis por cerca de 60% do fluxo internacional.

Os visitantes brasileiros permanecem, em média, entre uma semana e dez dias no país durante a alta temporada.

Para a diretora da Uruguay XXI, características como segurança e tranquilidade ajudam a explicar a atração exercida pelo destino sobre o mercado brasileiro.

“O turista brasileiro valoriza muitíssimo a tranquilidade que existe no Uruguai, a segurança”, afirmou Mariana, citando destinos como Punta del Este, José Ignacio, Colônia e Montevidéu.

Segundo ela, a possibilidade de viajar em família, caminhar pela Rambla e usufruir dos destinos com tranquilidade está entre os atributos percebidos pelos brasileiros.

Mas a presença brasileira não se limita aos visitantes. O turismo também abre caminho para investimentos em hotelaria, mercado imobiliário e varejo.

Mariana destacou, entre os movimentos recentes, a presença do Grupo Fasano e a aquisição do Enjoy pela JHSF, ressaltando que o investimento envolve não apenas a operação turística, mas também projetos de desenvolvimento imobiliário.

Hotelaria, real estate e varejo no radar

Quando questionada pelo Turisnews sobre os segmentos com maior potencial para investidores brasileiros ligados ao turismo, Mariana apontou diretamente hotelaria, real estate e retail.

Na avaliação da executiva, o tamanho do mercado uruguaio pode ser uma vantagem para empresas que desejam testar modelos de negócios antes de uma expansão maior.

Um dos exemplos mencionados foi o da Lojas Renner. A primeira operação internacional da varejista brasileira foi aberta em Montevidéu e, segundo Mariana, a companhia já possui mais de dez lojas no país.

“É um bom lugar, é uma boa plataforma para se instalar no Uruguai porque é acessível, porque é pequeno”, explicou.

Além dos setores diretamente relacionados ao turismo, o país busca atrair empresas interessadas em utilizar o Uruguai como plataforma regional. Entre os instrumentos citados pela diretora estão a Lei de Zonas Francas, a Lei de Investimentos e incentivos tributários que podem favorecer operações instaladas no território uruguaio e voltadas também ao mercado brasileiro.

Estabilidade como principal ativo

Se existe uma palavra que sintetiza a proposta uruguaia ao investidor brasileiro, segundo Mariana Ferreira, é estabilidade.

A executiva aponta estabilidade política, social e macroeconômica, além de regras claras, entre os principais atributos valorizados pelas empresas que analisam a possibilidade de investir no país.

“O primeiro atributo que o Uruguai tem é a estabilidade. A estabilidade em todos os aspectos: política, social e macroeconômica, que é muito importante”, afirmou.

Para Mariana, um dos desafios da Uruguay XXI é justamente tornar essas oportunidades mais conhecidas dentro do Brasil. Pela dimensão do mercado interno brasileiro, observa, muitas empresas ainda olham pouco para possibilidades de expansão em países vizinhos.

Brasil supera Estados Unidos nas consultas por investimentos

Um dos dados mais significativos apresentados durante a entrevista revela a dimensão desse movimento.

De 2025 até o momento em 2026, quase um terço das consultas recebidas pela Uruguay XXI na área de promoção de investimentos veio do Brasil.

O volume fez com que os brasileiros ultrapassassem os Estados Unidos na origem das consultas à agência.

O interesse, segundo Mariana, aparece em diferentes áreas, passando por indústria, energias limpas, serviços e serviços financeiros. A executiva citou, entre os movimentos recentes, a aquisição da operação do HSBC no Uruguai pelo BTG Pactual.

Atualmente, mais de 100 grandes empresas brasileiras já possuem presença no Uruguai, em atividades que incluem frigoríficos, setor financeiro, turismo, gestão de patrimônio e indústria.

Meta é ampliar presença brasileira — mas com qualidade

O objetivo da Uruguay XXI é aumentar essa presença nos próximos anos.

Hoje, o Brasil responde por aproximadamente 10% do investimento estrangeiro total no Uruguai. Mariana afirma que gostaria de ver o número de empresas brasileiras instaladas no país avançar das atuais 100 para cerca de 150.

Mais importante do que alcançar um determinado número, porém, é atrair investimentos diversificados e capazes de gerar empregos qualificados.

“Não me importa tanto a quantidade, mas sim a qualidade dos investimentos. E cremos que o Uruguai tem as condições para recebê-los”, destacou.

A escala da economia uruguaia também cria uma dinâmica particular para empresas brasileiras. Como observa Mariana, uma pequena ou média empresa no Brasil pode assumir uma dimensão proporcionalmente maior ao entrar no mercado uruguaio.

E existe ainda um movimento que começa pelo turismo e pode terminar no investimento.

Na avaliação da executiva, empresários e suas famílias muitas vezes conhecem primeiro o país como visitantes, descobrem posteriormente as condições e incentivos existentes para fazer negócios e passam então a considerar investimentos e até a possibilidade de viver no Uruguai.

Um porto seguro em um cenário de incertezas

Ao ser convidada pelo Turisnews a resumir por que este seria um momento favorável para as empresas brasileiras olharem para o país vizinho, Mariana voltou ao atributo que permeou toda a entrevista.

Em um ambiente internacional marcado por incertezas, o Uruguai pretende se apresentar ao investidor brasileiro como um mercado próximo e previsível.

“Acho que a tranquilidade, a estabilidade, o compromisso é o que mais precisam neste momento os investidores brasileiros, e o Uruguai tem isso para oferecer”, concluiu.